A oito horas de barco do município de Santarém (PA), comunidades à beira do rio Amazonas, no Município de Óbidos, preservam uma tradição secular que as torna peculiar: São Lázaro, Santa Cruz e Livramento, no Projeto de Assentamento Agroextrativista (PAE) Cacoal Grande, mantêm o cultivo e o beneficiamento do cacau. Elas estão na lista das que preservam a atividade em áreas de várzea no Baixo Amazonas.
Uma evidência de que o cacau é um elemento importante na história de Óbidos é a presença, como ilustração, no brasão oficial do Município. Quem nos conta essa singularidade é o professor Roberto Carlos Pinedo. Natural da Amazônia peruana, o pesquisador encontra-se no Brasil desde 2007, quando veio ao país para desenvolver sua tese de Doutorado, que tem como título O cacau do remanescente sistema agroflorestal caboclo nas relações socioeconômicas das famílias ribeirinhas de várzea do Município de Óbidos.
"Sabe-se, pelos documentos históricos, que o município de Óbidos destacou-se na produção de cacau durante e depois do período de colonização da Amazônia pelos portugueses. Inclusive, registros oficiais revelam Óbidos como sendo o principal município do Baixo Amazonas na produção e exportação de cacau", revela Pinedo.
No auge do ciclo do cacau em Óbidos, segundo levantamento do pesquisador peruano, a Coroa Portuguesa e, depois, o Império Brasileiro mantinham uma propriedade com mais de 40 mil pés de cacau na várzea deste município. Esta propriedade era o Cacaoal Imperial, cuja área hoje, transformada em campo de pastagem, é compartilhada entre as comunidades de Santa Rita e Vila Barbosa, ambas pertencentes ao PAE Costa Fronteira. Esses e outros fatos, de relevância histórica e da atualidade, foram descobertos no período de abril de 2008 a junho de 2010, quando Pinedo residiu na comunidade São Lázaro.
Dona Maria Dorotéia da Silva Carvalho (56), e Julio Leão de Carvalho (59), residentes na comunidade São Lázaro, são um típico casal que tem o cacau como presença cotidiana desde o nascimento. Os avós de Seu Júlio, portugueses, já trabalhavam com o plantio e o beneficiamento do cacau. Hoje, ele e a esposa tentam recuperar a área plantada. "Neste ano, devemos plantar, ao menos, mais cem pés de cacau", planeja o assentado. Em 2009, a família sofreu com os efeitos da grande cheia do rio Amazonas.
Do cacau, Dona Maria e o marido obtêm renda com a venda da semente, seca ou ainda com parte da massa do fruto, e a produção de geleia. De modo artesanal, eles utilizam o tipiti, uma espécie de prensa de palha herdada dos índios amazônidas, para obter o vinho da massa do cacau, que é levado ao forno até ganhar a consistência de geleia.
As mulheres do PAE Cacoal Grande criaram uma marca na venda da geleia do cacau. Quem a vê, logo reconhece sua origem. Em embalagens de tamanhos diversos e com preços que, usualmente, variam de R$ 3 a R$ 10, as geleias ganham formas em desenhos de animais, por exemplo. A venda ocorre sob encomenda ou numa feira de produtores rurais, localizada na área urbana do município de Óbidos.
Dona Maria da Conceição Marialva dos Santos (56), junto a outros assentados, acorda de madrugada, por volta das 3h, para pegar o barco que os leva à feira. Sua especialidade é a produção do que ela chama de pão chocolate. "Torramos a semente seca, descascamos, espanamos e moemos até obter a massa", explica a assentada, que vende o pão chocolate em bastões, que custam, cada um, R$ 2,50.
Além da feira semanal, Dona Conceição diz que um ótimo período de vendas é a Festa de Santana, que ocorre, no mês de julho, em Óbidos. O marido de Dona Conceição, Francisco Dinanci Vinenti Bentes (52), ajuda na coleta, no beneficiamento e na venda do cacau. O casal se prepara para, em dezembro, plantar mais de cem mudas de cacau.
"Os diferentes produtos beneficiados do cacau são de pequenas plantações que integram diferentes espécies agroflorestais, como o taperebá. É possível planejar políticas de desenvolvimento das áreas de várzea visando recuperar o plantio de cacau como o componente principal do sistema agroflorestal, diminuir o desmatamento ou restaurar o ecossistema", defende o pesquisador Roberto Pinedo.
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